terça-feira, 30 de março de 2010

O Rebelde - Inglês de Souza

Comentário

A antologia O rebelde e outros contos amazônicos reúne quatro narrativas: “O rebelde”, “A quadrilha de Jacó Patacho”, “O donativo do capitão Silvestre” e “Voluntário”. Os dois primeiros têm como tema a revolta popular que ficou conhecida como Cabanagem. Em “O donativo do capitão Silvestre”, há referências diretas à Questão Christie, o problema diplomático entre os governos brasileiro e britânico que ocorreu entre 1862 e 1865. Em “Voluntário”, Inglês de Sousa mostra a realidade amazônica na literatura, no período em que se faziam recrutamentos por causa da Guerra do Paraguai. Na segunda parte do livro, há um apêndice que relaciona os contos aos acontecimentos históricos citados.


O REBELDE



I



A primeira vez que o vi foi em Vila Bela, em 1832, já lá vão mais de quarenta anos. E u não passava dum curumim de onze anos, curioso e vadio, como bom filho do Amazonas. Paulo da Rocha orçava pelos cinquenta, parecendo muito mais velho. Pois, apesar dessa enorme desproporção de idades, ligava-nos uma amizade terna, inexplicável para toda a gente.



Curumim: criança; menino.



O velho, ríspido e severo, era extremamente bondoso para comigo. Não sei que ímã oculto me atraía para aquele mulato de cabeça branca, de quem meus pais não gostavam, e que inspirava a quase toda população da vila uma antipatia mesclada de horror.



Paulo da Rocha era pernambucano, e fora um dos rebeldes de 1817, um soldado fiel do capitão Domingos José Martins, o espírito-santense.



Em 1832, os principais habitantes da Vila Bela eram portugueses ou brasileiro do tempo do rei velho, que se não haviam ainda familiarizado com o novo regime, e detestavam cordialmente todo e qualquer movimento contra a legalidade estabelecida, mesmo porque o receio das convulsões políticas posteriores à Independência , que ainda perduravam, os traziam em contínuos sobressaltos. No terror dos inovadores, associavam toda idéia revolucionária às sangrentas carnificinas que desonravam o solo virgem da nova pátria.



A fértil imaginação amazonenese fizera do antigo revolucionário um personagem misterioso, sinistro e perigoso, cuja alma já estaria de posso do Inimigo, ainda em vida do corpo.



Emprestara-lhe o vulgo uma quantidade enorme de crimes. Diziam as velhas mexeriqueiras, sentadas à soleira da porta por noites de luar, que ao bater da meia-noite via-se vagar pelas ruas a alma do pernambucano, a purgar culpas passadas. As crianças fugiam à presença do velho, e os matutos benziam-se quando o viam passar curvado sob o peso da meditação constante, ou de algum desgosto indefinido, arrimado no seu bastão de maçaranduba, com o crânio, a meio despido, exposto aos raios do sol.





Maçaranduba: árvore que produz madeira de lei vermelha.



Todos se calavam quando ele aparecia. As mães de família faziam aos filhinhos a escusada recomendação de fugir às vizinhanças da casa maldita, em que morava o mulato; ou acalentavam as criancinhas, com umas cantigas ingênuas, em que o velho do outro mundo era comparado ao murucututu de cima dos telhadosm, o terrível espantalho dos pequenos mal dormidos.



Murucututu: ave da América do Sul, de coloração parda; alimenta-se de outras aves e mamíferos. O mesmo que coruja-do-mato.



Todos lhe tinham medo, e talvez por isso atría-me para ele uma simpatia irresistível. Desde a mais tenra infância, vivi sempre em contradição de sentimentos e de idéias com os que me cercavam: gostava do que os outros não queriam, e tal era a predisposição malsã do meu espírito rebelde e refratário atoda disciplina, que o melhor título dum homem ou dum animal à minha era afeição ser desprezado por todos.





Eu não podia ver um cão leproso, enxotado com asco, que não corresse a dar-lhe metade da merenda que me tocava nas liberalidades da mamãe.



A minha Imaginação exaltava-me com a singularidade, ao mesmo tempo que uma curiosidade feminina me impelia a buscar a última palavra em todos os segredos, a razão de ser de todos os mistérios. Gostava do maravilhoso, e com risco de ser devorado pela esfinge queria decifrar-lhe o enigma. A vista duma feiticeira enchia-me de gozo.





Sentia o desejo ardente de ver um lobisomem, e o canto agoureiro do acauã fazia-me estremecer de susto e de prazer, e, embrulhando-me na rede, punha o ouvido à escuta, tentando descobrir naquelas notas tristes e plangentes a verdade desse encantamento poderoso.



Acauã: ave falconiforme cujo canto é considerado de mau agouro e prenunciador de chuva.





Foi isso mais ou menos o que senti a primeira vez que encontrei no meu caminho o rebelde de 1817, temido e desprezado ao mesmo tempo. Em breve aquele vago temor, aquela curiosidade dolorosa se transformou em simpatia e respeitosa amizade. Naquele pobre velho, uma voz oculta me indicara um herói das antigas lendas, que minha avó me contava à luz mortiça da lamparina de azeite de andiroba, um homem como eu sonhava nos meus devaneios infantis.





Tudo no velho do outro mundo contribuía para excitar-me a imaginação e avivar o afeto que me inspirava; a grande cabeça calva, o nariz adunco, os olhos vivos, uns olhos de ave de rapina, a boca enorme, ornada de belos dentes, cuja deslumbrante alvura era realçada por um sorriso sério e pensativo, duma bondade de Cristo; a fala breve e rispída, duma rispidez franca, serena e boa; o porte alto e até aquelas rugas severas do rosto cor de cobre; a sua indiferença pelas vicissitudes comezinhas da vida; o nenhum caso que fazia das intrigas da terra; tudo me indicava no pernambucano um personagem ideal e fantástico, como eu imaginava os meus hérois.



Ao passo que o nome Paulo da Rocha afugentava os meus companheiros espavoridos, todo o meu cuidado era descobrir um novo expediante para visitá-lo, sem despertar a desconfiaça de minha mãe.






À hora da sesta, meu pai, depois de ter-me feito sentar numa cadeira da sala de visitas, com a Artinha latina nas mãos, retirava-se para seu quarto e momentos depois, coberto de jornais velhos, ressonava. A mamãe andava ainda a dar uns giros pela casa, recomendando silêncio aos moleques e cuidando do café que se havia de servir às seis horas, mas acabava também por se recolher à beatitude da rede, vencida pelo calor e derreada pela monotonia do seu viver caseiro. A habitação ficava silenciosa e triste. As escravas agrupavam-se na cozinha e cochilavam, conversando em voz baixa. Os moleques trepavam às goiabeiras do quintal, fartando-se de frutas Só de vez em quando um galo invadia a varanda deserta e cortava bruscamente o silêncio, acompanhado com o canto barulhento e alegre as sonoras badaladas do grande relógio de parede, viera do Reino.


O calor era intenso, o sol brilhava com esplendor ofuscante, fazendo estalar os telhados. A vila parecia toda entregue ao repouso pós-meridiano da sesta costumeira. Descalço, pé ante pé, eu atravessava a casa e me esgueirava pelo portão do quintal.







Mal me sentia ao abrigo das vistas fiscais da criadagem, deitava a correr pelo caminho do cemitério até chegar à casinha de Paulo da Rocha, escondida entre laranjeiras copadas. Lá estava ele sempre, a essas horas do dia, sentado num banco de cedro, encostado a uma mesa tosca e mergulhado na leitura dalgum livro velho roído de traças.






Conversávamos sobre o tempo antigo, ou lendo as histórias extraordinárias que haviam sucedido em Pernambuco, e que ele se gabava de ter presenciado. Gostava de excitar-me a imaginação infantil com a narração desses feitos gloriosos que me faziam estremecer de alegria e seguir os olhos acesos e as faces ardentes de entusiasmo as palavras e gestos do velho, transfigutado pelas reminiscências do passado.



Ah! se o tivessem visto e ouvido assim os habitantes de Vila Bela!




II








O Rocha era viúvo e tinha uma única filha, rapariguinha gentil de dezesseis a dezessete anos, pensativa e séria como o pai. A vida que passava em Vila Bela a pobre mocinha abafara os impulsos da jovialidade natural. Desprezada de todos, vivendo isolada, entregue unicamente aos cuidados dum pai velho e triste, a interessante Júlia conhecera desde os mais tenros anos a desgraça, e pareceia resignada à sua infeliz sorte.


Aquele velho e aquela menina compreendiam-se perfeitamente. Ele nunca tinha um movimento de mau humor, um gesto de descontentamento. Ela não parecia sofrer um desgosto. Serena, silenciosa, atenta ao menor desejo do pai para preveni-lo e contentá-lo, parecia que a sua vida dependia da vontade daquele homem, severo e ríspido para toda a gente, bondoso e paternal no interior do seu modesto habitáculo. A mocinha conhecia-lhe todos os gestos e as mais insignificantes predileções. Parecia adivinhar quando o pai gostarias de estar só, entregue aos seus pensamentos, ou quando sentiria prazer em ouvir as modinhas da terra natal, do seu Pernambuco, tão cheio de poesia e de tradições gloriosas, modinhas que em pequena lhe ensinara para suavizar as agruras do exílio e a saudade intensa dos tempos de mocidade.



Ás vezes era Júlia quem nos fazia a leitura, sentada ao pé de mesa jantar, com o livro na mão, repetindo em voz suave, repassada de doçura, aquelas histórias de batalhas e mortes, já muito nossas conhecidas.
O velho, com o queixo apoiado nas mãos que repousavam sobre o bastão de maçaranduba, seguia atentamente o movimento labial da jovem, como se ouvisse alguma coisa ignorada. Quanto a mim, a minha atenção repartia-se entre o velho, a história e a menina, mas com parcialidade pela menina.
Como eram agradáveis esses momentos de suave intimidade, e como duravam pouco!
Era com maior prazer que lobrigava ao longe, aproximando-se receosa a crioula, que vinha bondosamente avisar-me de que a senhora já estava acordada. Muitas vezes, ao chegar à casa paterna, sofria correção merecida pela desobediência e pelo desapego à Artinha; mas não era pelo castigo que eu me recolhia triste e cabisbaixo ao quarto de dormir: era porque no silêncio do aposento, apenas cortado pelo rangido das cordas da rede nas escápulas de madeira, parecia-me ter diante dos olhos o grupo encantador do velho e da menina, e ouvir a voz de Júlia, lendo as proclamações incendiárias dos rebeldes pernambucanos!
Paulo e a filha viviam pobremente, concentrados e tranqüilos naquela casinha pitoresca, cujos arredores floridos e desertos inspiravam uma doce melancolia.
Eram muito pobres para ter escravos, ou não os queriam, e criados livres não encontrariam numa terra onde só o nome do velho do outro mundo causava horror e medo. Mas Júlia era excelente dona de casa. Era admirável de previdência, de asseio e de economia, e as únicas pessoas que tinham ingresso na humilde habitação, o padre vigário e eu, reconheciam essas virtudes caseiras, tão raras entre as mulheres do povo.
Por uma singularidade, o vigário era entusiasta do pernambucano. Apesar dos conselhos e advertências doas amigos e dos murmúrios das velhas rabugentas, padre João da Costa do Amaral se chamava ele, freqüentava a casa de Paulo da Rocha, passava largas horas a conversar com ele, e levara mesmo a despreocupação da feitiçaria ao ponto de fazê-lo sacristão e sineiro da matriz, com grande escândalo das almas piedosas e rebuliço do beatério.
O hábito e a vara não lograram para padre João da Costa a desculpa de tão estranha predileção, e os mais benévolos avançavam que se deixara enfeitiçar pelo danado pernambucano, e falavam em representar ao senhor bispo contra a situação anômala da paróquia.
Mas, sem embargo dos falatórios, continuava Paulo da Rocha a ser o sineiro da matriz, e a desempenhar os deveres do cargo com exatidão e escrúpulo, não ocasião às fáceis censuras dos desafetos.
Ao amanhecer do dia, quando se abriam as portas uma a uma, e só se viam na rua raros tapuios sonolentos, caminhando pesadamente para o serviço, Paulo saia de casa e atravessava a vila em direção á igreja.
Era ele que dava o sinal da missa matutina e preparava o templo.
Enfiava depois a velha opa, pingada de cera amarela, e punha-se á espera do vigário que não tardava em chegar, saudando os transeuntes com um sorriso afável.
Pouco a pouco se foram rarefazendo os devotos da missa da manhã, graças à presença do velho rebelde, mas padre João não parecia dar o cavaco e continuava a oficiar regularmente, tendo muitas vezes o sacristão por único ouvinte.
Dar cavaco: não se incomodar, não ligar.
Água mole em pedra dura tanto dá até que fura, dizia padre João com o seu sorriso amável e teimoso, mostrando os belos dentes de brilhante esmalte. Afinal foi-se o povo de Vila Bela acostumando à presença de Paulo da Rocha, suportado como uma calamidade inevitável. Padre João da Costa era o beijinho dos vigários, alto, gordo, alentado de cores sadias e de sorriso afável, de cabelos da cor da noite e de tez da cor do leite, de caráter bondoso e modos francos. O seu único defeito diziam as beatas, era a inexplicável afeição que dedicava ao mulato excomungado. Alguma coisa se lhe havia de desculpar, enfim. Não que se resolvessem a assistir à missa da madrugada, mas com o auxílio do tempo, o grande regularizador das situações embrulhadas, Paulo da Rocha foi-se sentindo mais à larga naquela sociedade ferrenha, estúpida e despótica... a sociedade de 1832.
O que mais contribuiu para uma tal melhoramento do velho do outro mundo foi a diversão feita no espírito público à primeira notícia da aproximação da cabanagem, que assolava o Pará, e que ameaçava a comarca da Barra do Rio Negro, hoje província do Alto Amazonas, de que fazia parte a paróquia de Vila Bela.



III



Muitos boatos contraditórios circulavam. O pânico era enorme.



Ora dizia-se que os cabanos vinham tomar de assalto a vila e queimar vivos os habitantes, ora que haviam sido completamente batidos pelas tropas legais, antes de descerem a Santarém.
Não se falava senão na cabanagem, e o pobre velho, rebelde de 1817, era esquecido pelos rebeldes do tempo. Todos os dias tapuios desertavam do serviço dos patrões e fugiam nalguma canoa furtada, descendo o rio para se irem encontrar com os brasileiros.



A vila ia ficando deserta, à medida que os terríveis inimigos dos portugueses e dos maçons se aproximavam de Óbidos. Os cacaualistas retiravam-se para os sítios. Aqueles que tinham alfaias ou dinheiro tratavam de escondê-los, enterrando-os. A desconfiança era geral, o pai não se fiava no filho, o irmão não confiava segredos ao irmão.
Terrível efeito da guerra fratricida!

7 comentários:

  1. Eu desejo uma vida longa cheia de sucesso e felicidade pra quem disponibiliza esse tipo de material. (y) Isso facilita MUITO o entendimento do conto. :3 Muito agradecida. \o

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  2. Muito obrigado para aquele que teve a iniciativa de criar este artigo. Facilitou muito o estudo da obra ja que eu não a encontrava em lugar nenhum, e a explicação de termos desconhecidos ajudou e muito na total compreensão da obra. Muito obrigado!

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  3. O personagem e antagonista ou protagonista?

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  4. O personagem e antagonista ou protagonista?

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  5. O personagem e antagonista ou protagonista?

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