Resumo
Este artigo busca elucidar como Machado de Assis desenvolveu o tema da memória nos
contos “Dona Paula”, “Missa do Galo” e no romance “Dom Casmurro”. No conto “Dona
Paula”, podemos encontrar uma complexa relação entre a memória, o inconsciente e o
conteúdo emocional da memória. Em “Missa do Galo”, Machado cria um narrador capaz
de relatar uma vivência passada, mas que, ainda assim, não toma consciência do sentido
não verbal do episódio vivido; todavia, no momento em que o narrador expressa sua
experiência, ele anuncia nas entrelinhas e no estilo narrativo esse sentido não verbal. E
no romance “Dom Casmurro”, observamos como Machado representou a memória não
como coisa fixa, mas como algo que pode se alterar e se reorganizar pela linguagem
expressiva e se deformar pela imaginação e por fatores inconscientes.
P alavraschave:
memória; Machado de Assis; história da psicologia.
A bstract
This paper intends to elucidate the conceptions of memory in the work of Machado de
Assis. For that, we analyzed the short stories “Dona Paula”, “Missa do Galo” and the
novel Dom Casmurro. In the short story Dona Paula, there is a complex relationship
between memory, unconscious and the emotional content of memory. In “Missa do
Galo”, we observed the phenomenon in which a person remember an experience of his
life but does not comprehend the nonverbal
meaning of it; however, when the narrator
expresses his experience, he announces the emotional content indirectly in his narrative
style. Finally, in the novel Dom Casmurro, Machado develops a concept of memory that
is not something fix, but something that can be deformed and reorganized by
imagination, unconscious, language an by the intention with which memory is examined.
Keyw ords: memory; Machado de Assis; history of psychology.
I ntrodução
Neste artigo, buscaremos contribuir ao aprofundamento da temática da memória na obra
de Machado de Assis (1). Para isso, centramos nossas análises em revelar como, para o
autor, muitos dos fenômenos relativos à memória não podem ser compreendidos
isoladamente, sem se levar em conta a totalidade psíquica e existencial do indivíduo. E
buscaremos mostrar como a Machado articula a memória com a noção de inconsciente.
Isso porque, como veremos, o ato de se rememorar uma vivência está sujeito a uma
série de fatores que deformam, redimensionam, resignificam
essa vivência passada.
Assim, lembrarse
não significa replicar na mente a vivência, mas em revivenciar
o
vivido. Fazse
necessário, portanto, conhecer dentro de que condições, com que
intenções e como homem voltase
para o seu próprio passado.
Podemos observar, em diferentes âmbitos, que Machado de Assis teve um grande
interesse pela memória. De fato, o restante do acervo da Biblioteca de Machado de Assis
indica, pelos livros ali encontrados, que Machado de Assis muito se interessava tanto pela
psiquiatria e pela psicologia, e que tinha um especial interesse na faculdade da memória.
Destacase
a obra aí encontrada Les Maladies de la Memoir (1881/1936), de um famoso
psiquiatra francês da época Th. Ribot (18391916).
O conteúdo desta obra, publicada em
1881, é significativo, pois foi inspirado nela que Machado de Assis teceu o conto: “O
lapso”. A relação entre esta obra de Ribot e tal conto foi pormenorizadamente analisado
por Barbieri (1998) em seu artigo “O lapso ou uma psicoterapia do humor”. Podese
dizer que o conto foi feito como uma paródia da obra psiquiátrica de Ribot e revela,
juntamente com contos como “O alienista” a posição de Machado de Assis frente à
psiquiatria.
O interesse de Machado pela memória revelase
tanto por meio do conteúdo de
romances e crônicas, quanto pelos livros de psiquiatria que fizeram parte de sua
biblioteca particular (Jobim, 2001). Além disso, em dois dos romances mais importantes
de Machado, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro, os autores ficcionais
buscam resgatar da memória o seu passado a fim de relatar ao leitor as suas próprias
vidas. Neste artigo, buscaremos abordar o tema da memória mediante a análise de
“Dona Paula” publicado pela primeira vez em 1884, “Missa do Galo”, em 1894, e Dom
Casmurro, em 1900. Selecionamos estas obras ficcionais como objeto porque cada uma
delas complementa a análise das outras, de tal modo que, juntas, permitemnos
transmitir um panorama mais completo das reflexões do autor sobre o tema.
Dona P aula: “ o esqueleto da história, sem a alma da história”
O conto “Dona Paula”, publicado em 1884, ajudanos
a compreender como Machado
trabalhou o problema da carga emocional contida na memória.
Venancinha e Conrado estão casados há pouco tempo. Mas o matrimônio é abalado por
um “galhardo rapaz” que, chegando da Europa, começa a flertar com a moça,
convidandoa
ao adultério. O marido percebe o flerte, revoltase,
ameaça separarse
da
esposa, razão pela qual sua tia, Dona Paula, encontraa
aos prantos e resolve dar um
jeito na situação. Vai ter com o sobrinho e apresentalhe
a seguinte proposta: “Você
perdoalhe,
fazem as pazes, e ela vai estar comigo na Tijuca, um ou dois meses; uma
espécie de desterro. Eu durante este tempo, encarregome
de lhe pôr ordem no espírito.
Valeu?” (“Dona Paula”, Machado de Assis (2004a, p.558). Ao deixar a casa, o marido
revela a Dona Paula o nome do homem que estava convidando sua esposa à valsa do
adultério: Vasco Maria Portela. Ao escutar o nome, Dona Paula empalidece, mas logo se
recompõe este
rapaz era filho de um homem com quem, na época de sua mocidade,
ela havia tido um caso extraconjugal, e “enchido a taça das paixões”. E agora,
ironicamente, cabia a ela missão de restaurar moralmente a sobrinha. É a partir desta
situação, meticulosamente construída, que o narrador irá analisar as contradições
interiores de Dona Paula:
terça-feira, 30 de março de 2010
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